7.4.09

ALZHEIMER

Há 15 anos parada na sala, Rita espera o filho voltar da escola. Todo dia, às 17h. Com poucos passos, alguns suspiros e menos palavras, apenas espera a chegada do filho. Permanece ali, quase inerte.

Quem chega é o marido, que retilineamente lhe mostra a foto do filho e lembra que querida, ele não voltará da escola hoje.

6.4.09

CICUTA

O que não mata, engorda, brindou a anoréxica.

9.3.09

LITERAL

Toda a vez que nos víamos era a última. Potencialmente falando. É engraçado saber como éramos felizes, sem que as lembranças consigam ocupar a mente. Sabendo apenas, incapaz de sentir. Àquela época, nos apegamos ao estado terminal profetizado pelo médico. Jamais cogitaríamos a cura – éramos felizes encerrados na pequena ampulheta dos meses de vida.

Ah, você queria viver uma daquelas paixões de livro de poesia barata, com todos os problemas que um problema deveria ter, só para poder chegar ao feliz para sempre. Para sempre era tão pouco já, a felicidade eterna nos era palpável. Eu não acreditava nos acessos shakespearianos, pois o meu para sempre era bem mais permanente e incerto.

E quanto mais a contagem regressiva era contada, mais explodia paixão daqueles poros cuja vida estava esgotando-se. Cada dia uma nova aventura, um novo percalço romântico, uma concretização do ideal a ser lembrada.

Quando faltavam cerca de 30 dias para a data fatídica, ousou, pela primeira vez, não ser perfeito. Jamais saberia explicar o que apossou-se de mim. A utopia havia descolado-se do corpo que tinha sido sua morada durante os últimos meses e agora andava bêbada pelas ruas da cidade buscando outra alma vazia sedenta de vida por esperar a morte.

O último mês transformou-se em dois, e o segundo trouxe um outro e assim a vida permaneceu ocupando aquele corpo que eu já não sabia se pertencia a mim ou ao mundo. E, minguando assim, nos via em páginas de Caio Fernando Abreu, com uma paixonite tão jovem e doente, que desfaria-se no ar.

Não bastou cair - quem foi rainha, dizem, nunca perde a majestade. Continuei ao seu lado, esperando não casamentos, mas funerais, fingindo ainda viver aquele romance bonito, de livro de quinta série. Mas decaía não em qualidade literal do personagem que me impunha, mas como homem real que era obrigado a ser, até que nos vi refletidos em páginas rodrigueanas.

Foi que, então, tomada pelo ópio da humilhação, ousei proferir palavra que quebrasse o pacto do eterno enquanto dure, que já não mais era real - éramos literais sempre. Foi de um adeus gélido a última lembrança. Porém, a tristeza inocente de que sua morte não tardaria – o último mês multiplicado em 10 já – me apossou.

Dias e dias, que noites já sequer sei se haviam, visto que era sempre dia dentro de meu apartamento, luzes acesas, janelas fechadas, passei assim. Na calma agonia de quem aguarda o fim. Ainda nunca usado o vestido que escolhemos juntos para que eu usasse em seu velório.

Quando as amigas souberam do ocorrido lamentaram nossa vida sempre tão teatral. Os personagens que dele foram feitos não dependeram apenas de sua cabeça, mas havia um diretor regendo tudo aquilo, e a notícia desta orquestra estampava os jornais há meses. Alienada que estava em nossa arte da vida, incapaz de ver qualquer realidade em noticiosos tais. Mas da boca de uma delas, veio a notícia da cura, para me atormentar.

12.1.09

O QUARTO

Nunca soube como parei aqui, mas o fato é que aqui estou há tempo que não conto.

No início, eu era solidão. Fazia da saudade a única companhia. Logo, as paredes úmidas aprenderam a me confortar. Todas as noites, num abraço, protegiam do vento que a janela ameaçava. Durante o dia, era a mesma janela que me brindava com a vida de uma ou outra flor, às vezes um pássaro, nunca pessoas. (Lembro o dia em que o uma borboleta entrou no quarto – como vivi!)

Em tempos, era a falta de comida que me assombrava. Às vezes a falta de sexo. Às vezes a de higiene. Tudo resolvi. Comia baratas, lagartixas, uma ou outra fruta que a janela presenteasse, pendurada num galho ao meu alcance. Aprendi o prazer que existia em mim e mais ninguém. À sujeira, acostumei-me, não mais percebia cheiros saídos de meu corpo, não mais me ocupavam as doenças. Estava tudo fora do quarto. Ali, não havia resquício de humanidade, não fosse eu, já tão inumana.

A verdade é que acostumei-me à privação. Preferia o cárcere particular que me era ofertado naquele quarto, do que o mundo barulhento da rua. Ali, tudo era ao alcance da mão, a vida resumia-se no som do balançar de folhas na janela.

Chances de sair nunca faltaram, mas fugir da simplicidade em que me encontrava para um mundo equacionado a cada milímetro não seria saudável. Nem a solidão ou a ausência de comodidade me motivavam a pular a janela. Era só ela minha televisão, era nela minha existência.

De vez em quando, vinha a tempestade a lembrar-me que o mundo existia além de mim.

5.1.09

ROLETA RUSSA

Se tivéssemos morrido ali, seríamos felizes para sempre. Mas ele disse que não gostava do jogo. Quis parar – nem havíamos começado. Eu peguei a arma.

Ele tinha o rosto de uma cor confusa entre medo e raiva. Do auge de seus quarenta anos, invejava a inconseqüência de menina que eu tinha. Ele pensa nos filhos – o olho denuncia. Se soubesse que havia outro rebento, em formação dentro de mim, que faria? Pagaria o aborto, sumiria da minha vida, nunca mais notícias.

Miro no risco de sobrancelha que sobra entre seus olhos.

Eu não sabia o que tinha me levado a inventar a brincadeira. Mas eu sabia o que me motivava a insistir. Volto a arma para minha cabeça e puxo o gatilho. Tua vez.

Ele berra. Eu digo para ele que vamos ser felizes para sempre e o irrito mais. Ele tem medo, confusão. E sua angústia me dá mais vontade de ser deus, a arma na mão fingindo brincar com a vida. Aponto de novo para seu rosto. Ele pára, cega, berra. É uma galinha sem cabeça, insistindo em viver. Puxo o gatilho.

Não goza a percepção de ainda estar vivo, sequer a entende. Faria qualquer coisa por mim agora. Larga a família e foge comigo? Largo. Eu não queria que ele largasse. Direciono o cano da arma para a ponta de meu nariz e atiro novamente e novamente nada acontece.

O profissional bem sucedido, o pai de família, o amante sagaz, todos agora se renderam ao rato de laboratório em que ele se transformou. Tudo à mercê de mim. Volto o trinta-e-oito para seu semblante amedrontado e aperto mais uma vez o gatilho. Ele não sente a sensação da sobrevivência, só percebe a morte eminente.
Miro em mim e disparo outra vez, com a certeza de permanecer intacta, para zombar do homem desconstruído em minha frente. Enquanto ajoelhado ele implora pela vida, aponto para o topo da cabeça e lhe dou novamente a impressão de presenciar a morte, mas ela não vem ainda. Enquanto a mão direita empunha a arma, a esquerda seca o pranto que lhe escorre a cara: Calma, são só mais duas agora.

Nos olhos, ele denuncia querer minha morte, não pela angústia que eu lhe causava, mas por ser a única forma que tinha em mente de continuar vivo. Rodo a arma com a mão e disparo bem entre meus olhos. Sorrio. Tua vez! Vulgarmente amedrontado, o choro lhe toma o rosto, a angústia pesa as costas. Vomita. Transita num infinito entre implorar a vida e carregar em insultos contra mim. Ele não cogita a fuga. O raciocínio não lhe permite concentrar em outra palavra que não seja morte. Pede por favor, com grossos fios de baba lhe marcando a boca. Está em condições de aceitar a vida com qualquer privação, desde que a tenha.

É o ponto onde eu precisava chegar. Deixo a arma descarregada no chão, seguro seu rosto, e digo: estou grávida.