Já o tinha visto desnudo vezes que não caberiam no papel, mas só agora aquele corpo me deixa à mostra toda sua nudez. Só agora vejo o que havia por trás da pele - por trás dos pêlos. Aquele jeito de voltar atrás que surpreende mais a ele que a mim. Toda uma falta de orgulho que ele nunca soube ou nunca admitiu sentir.
Mas eu digo um não triste, do tipo que tentou ser sim por um instante. E eu não sabia de onde viera tanta imposição para dizer uma palavra que minha boca não queria acreditar, contrariando todas as falsas filosofias de vida tecidas a esmo por mim entre copos de cerveja.
Foi assim, de uma forma quase triste, que nos olhamos a última vez. Daquela tristeza que doía em silêncio - não o fim iminente, mas por não nos reconhecermos mais dentro de nós.
13.7.09
8.6.09
JÚLIO
Eu não esperava encontrá-lo ali. Pelo olhar, ele confessa que também não esperava me ver. Não daquela forma. Júlio, apresentei-os, este é meu namorado. Luís apenas sorriu. Ele tinha esse sorriso sempre pronto para mostrar quando algo lhe desagradava. Era a maneira dele de dizer que não gostou – nunca entendi como fui namorar um homem tão avesso às palavras.
Bem, acho melhor eu ir, o Júlio interrompeu, com aquele jeito dele de saber se afastar na hora certa. E foi.
Então ficamos a sós. Eu, ele e o silêncio, que era quem falava mais alto. Perguntei como havia sido seu dia e ele respondeu que tinha sido Bom, emendando banalidades que conversamos como se fossem relevantes, ambos sabendo que era apenas uma forma de adiar o diálogo que tivemos logo depois, quando ele desviou os olhos de mim e disse Este Júlio, é novo? Era bonita essa forma dele de aceitar, aquela submissão apaixonada que ele tinha não por mim, mas por qualquer paixão que lhe brotasse.
Às vezes a mãe dizia que eu devia me casar com ele, mas se casasse eu teria que ser fiel e isso eu ainda não tinha aprendido a ser. Enquanto isso, ele esperava. Ele sabia esperar tanto quanto era capaz de compreender meus deslizes e sempre com aquele sorriso que eu já tão bem conhecia. Ele ensaiou uma lágrima para comover, mas desistiu. Gostava de fingir que era forte ou que não se incomodava. Por tempos acreditei. Hoje, conheço a máscara.
Ele não pede explicações, tampouco as dou. Voltamos às futilidades, que eram mais bonitas que essas coisas sérias. Mas o toque do meu telefone interrompe. Eu já sei quem é. Ele sorri.
Bem, acho melhor eu ir, o Júlio interrompeu, com aquele jeito dele de saber se afastar na hora certa. E foi.
Então ficamos a sós. Eu, ele e o silêncio, que era quem falava mais alto. Perguntei como havia sido seu dia e ele respondeu que tinha sido Bom, emendando banalidades que conversamos como se fossem relevantes, ambos sabendo que era apenas uma forma de adiar o diálogo que tivemos logo depois, quando ele desviou os olhos de mim e disse Este Júlio, é novo? Era bonita essa forma dele de aceitar, aquela submissão apaixonada que ele tinha não por mim, mas por qualquer paixão que lhe brotasse.
Às vezes a mãe dizia que eu devia me casar com ele, mas se casasse eu teria que ser fiel e isso eu ainda não tinha aprendido a ser. Enquanto isso, ele esperava. Ele sabia esperar tanto quanto era capaz de compreender meus deslizes e sempre com aquele sorriso que eu já tão bem conhecia. Ele ensaiou uma lágrima para comover, mas desistiu. Gostava de fingir que era forte ou que não se incomodava. Por tempos acreditei. Hoje, conheço a máscara.
Ele não pede explicações, tampouco as dou. Voltamos às futilidades, que eram mais bonitas que essas coisas sérias. Mas o toque do meu telefone interrompe. Eu já sei quem é. Ele sorri.
1.6.09
PÊLOS
Era estranho ele me dizendo aquilo, como se me doasse os pêlos de outro amor. Todas aquelas palavras pareciam dublagem mal feita, a voz não encaixava naquela imagem que sempre tive diante de mim. Era estranho perguntar se eu estava bem, sem nenhuma raiva na voz. Tudo errado demais para aquela segunda-feira morna de ônibus ainda. Sorri como nunca o vi sorrir, como quem passeia com seu cão num domingo qualquer, repleto de alegria infundada e serena. Mas passeia é por pensamentos, divaga em paixão, faz alusão àquele passado como algo que já passou. (Eu sempre quis que o fim acabasse mesmo, mas quando ele desce do ônibus fica um lugar frio ao meu lado, uma sensação vazia no estômago, como o vazio que ele fez no dia que foi embora levando as roupas e os vinis. Nascidos nos anos 80, só ele ainda ouvia vinil. Fazia parecer culto, creio.)
Mas eu também tenho que descer do ônibus que minha parada é logo. Eu não quero, mas deixo uma tristeza insincera entrar em mim. Ela parece que adentra a boca com o café já frio que tomo ao chegar no escritório. Todo mundo espera seus bom-dias na sala, mas esqueço. Só lembro do que não consegui esquecer. Digito uma multidão de pensamentos no teclado que não se transformam na idéia que eu deveria ter. Nesse momento eu queria fumar, mas nunca gostei de cigarro. Só vejo a calma que passa aquela fumaça saindo leve da boca. É uma calma bonita de ver, aquela fumaça.
Era estranho eu sentir assim agora essa facada que já devia ter cicatrizado há meses. Mas eu nem sei sobre o que sinto. Tiro logo da cabeça qualquer idéia que surja. Difícil concentrar mais que 5 minutos. Eu decido dizer tudo. E ligo, é de manhã ainda, ele não entende porque ligo logo depois de termos nos visto. Mas nada do que tivemos foi feito para entender. Nós não éramos equações solucionáveis em porquês, nunca fomos. E mesmo assim ele entende tanto quando ou consigo entender do que estou pensando, quase nada, acho. Não faz diferença. É engraçado que eu não saiba mais o que falar, que eu talvez nem tenha falado, que talvez aquele lapso de tempo tenha se passado em outra dimensão, não nessa tão plana. Estranho que tenhamos rido juntos novamente, distantes apenas por uma linha telefônica, a mesma na qual costumávamos chorar madrugadas inteiras aquele amor que sentíamos no estômago, nunca no peito. Desligamos ainda sem saber o porquê daqueles outros pêlos doerem agora nele. Os dele ainda encravados em mim.
Mas eu também tenho que descer do ônibus que minha parada é logo. Eu não quero, mas deixo uma tristeza insincera entrar em mim. Ela parece que adentra a boca com o café já frio que tomo ao chegar no escritório. Todo mundo espera seus bom-dias na sala, mas esqueço. Só lembro do que não consegui esquecer. Digito uma multidão de pensamentos no teclado que não se transformam na idéia que eu deveria ter. Nesse momento eu queria fumar, mas nunca gostei de cigarro. Só vejo a calma que passa aquela fumaça saindo leve da boca. É uma calma bonita de ver, aquela fumaça.
Era estranho eu sentir assim agora essa facada que já devia ter cicatrizado há meses. Mas eu nem sei sobre o que sinto. Tiro logo da cabeça qualquer idéia que surja. Difícil concentrar mais que 5 minutos. Eu decido dizer tudo. E ligo, é de manhã ainda, ele não entende porque ligo logo depois de termos nos visto. Mas nada do que tivemos foi feito para entender. Nós não éramos equações solucionáveis em porquês, nunca fomos. E mesmo assim ele entende tanto quando ou consigo entender do que estou pensando, quase nada, acho. Não faz diferença. É engraçado que eu não saiba mais o que falar, que eu talvez nem tenha falado, que talvez aquele lapso de tempo tenha se passado em outra dimensão, não nessa tão plana. Estranho que tenhamos rido juntos novamente, distantes apenas por uma linha telefônica, a mesma na qual costumávamos chorar madrugadas inteiras aquele amor que sentíamos no estômago, nunca no peito. Desligamos ainda sem saber o porquê daqueles outros pêlos doerem agora nele. Os dele ainda encravados em mim.
25.5.09
SILÊNCIO
Um cachorro rompeu o silêncio da rua. De qualquer forma, não era daqueles silêncios nobres, de pessoas que não fazem barulho. Era o silêncio sujo que os bairros boêmios tem após o amanhecer. Apenas um dos bares em funcionamento, àquele horário. O sol alto já denunciava advogados e contadores em seus escritórios. Mas nós não usávamos paletó. Copo a copo, desvendávamos os segredos da humanidade, como se fossemos talvez aquele cachorro que rompeu o silêncio da rua. Nunca humanos. Preferíriamos para sempre aquela vida de não ter horários,mas paixões. Essa vida de choro e riso alternando-se incansavelmente. Sequer conhecendo o significado da palavra inércia. Seríamos eternamente livres, como prometemos naquela manhã de agosto - o frio do sul conferindo uma tonalidade rósea, quase inocente, a nossos rostos. Hoje, nostálgico lembrar aquela manhã, há pouco mais, ou pouco menos talvez, de cinco anos. Meu despertador toca antes da hora em que outrora eu dormia. E nós sabemos em silêncio, como o silêncio das ruas boêmias ao amanhecer, como o silêncio rompido daquela manhã fria de agosto, que não há mais tempo para abraçarmos a vida.
18.5.09
MOSCAS
A casa guardava ainda o frio do inverno. Contrariando a temperatura, insetos displicentes haviam tomado a casa. Não qualquer inseto, mas ruidosas moscas a vasculhar o ambiente com olhos cubistas. Apaixonadas por natureza morta, eram enganadas pela multiplicidade de olhos que lhes mentiam em Picasso qualquer pincelada que vissem.
Quando vivo, o sonho do pintor era fazer platéia mais que fortuna. Jamais obteve qualquer dos dois objetivos. As paisagens frias agradavam sequer a mãe, que há meses não o procurava.
Foi que ontem, justo ontem, resolveu procurá-lo. Apenas o mosquedo velando o corpo do artista que, segundo uma das moscas presentes no local, tão bem as entendia.
Quando vivo, o sonho do pintor era fazer platéia mais que fortuna. Jamais obteve qualquer dos dois objetivos. As paisagens frias agradavam sequer a mãe, que há meses não o procurava.
Foi que ontem, justo ontem, resolveu procurá-lo. Apenas o mosquedo velando o corpo do artista que, segundo uma das moscas presentes no local, tão bem as entendia.
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