15.3.10

EU, TU E O GATO

De repente a gente estava numa banheira, eu, tu e o gato. não sei mesmo o que gato fazia ali, só sei que ele tinha o olho assim, mais amarelo, como o olho dele é. eu não conseguia saber o que tinha na banheira, acho que lama, eu disse, mas tu não escutou - nem na banheira tu escutava, acho que tu ouvia música, mas eu não sabia disso. e o gato se mexia, como afogando, mas nenhum de nós lhe deu atenção, como nunca daríamos atenção, do jeito que fazemos quando ele roça tua perna ou pula no meu colo, implorando carinho. mas agora ele se afogando e não fazíamos nada também, porque tu escutava música, eu acho, embora não soubesse, e eu pensava o que tinha naquela banheira em que nos encontrávamos e nenhum de nós estava envolto em nenhum processo mental filosófico que dissesse porque estávamos naquela banheira com o gato que se afogava a nossa frente sem que tivéssemos o trabalho de retirá-lo de lá. (Era uma bonita morte a que assistíamos e não havia nenhum motivo aparente para acabar com ela e transformá-la novamente em vida) então eu disse, merda! e nem tu, nem o gato, escutaram. ele estava preocupado demais em se afogar para se importar com o conteúdo da banheira que era agora nossa morada. o cheiro era de merda, definitivamente, e eu não sei como não percebera antes - no princípio cheguei a pensar em chocolate e, por sorte, não provei-lhe. eu sorrio desses desastres do meu olfato, já quase perdido, e de ver o gato assim, desfalecendo aos poucos, perdendo a vontade de lutar e quando eu acho que ele vai desistir, ele tira do esôfago um som que era mais que morte, um som que interrompe até a tua música e eu penso que não quero que tu fique brabo porque o gato está morrendo sozinho e dessa forma não convém que tu o ajude, sujando tuas mãos, que já estão sujas de merda, de sangue também. mas acho que tu percebe que não seria sensato fazê-lo e volta a tua música. e eu busco outra coisa para me questionar agora que sei o que inunda aquela banheira, enquanto o gato continua a morrer.



(eu sei que secretamente tu olha meu corpo contraído, o olho mexendo agitado e torce para que sejam logo sete horas, para que seja o despertador e não tu a me tirar estas inquietações)

8.3.10

DIA DE ADEUS

Então não funcionava, por mais que tentasse. E ele foi todo diminuindo, como se fosse feito de músculo - músculo-flácido-corpo-inteiro. Foi amarelecendo, não amarelando, amarelecendo, como quem não quisesse mais ser. Eu abracei ele como se fosse criança, um filho talvez que eu não quis ter mas que me sabia responsável e a diferença de idade existia, mas era pequena. Perguntei se podia acender a luz e ele pediu que não, que ficasse abraçada assim. tinha medo, não de mim, mas de um amanhã que viria dias depois. um amanhã que conviveu conosco por três dias, tão poucos e longos estes. prometi continuar abraçada, mas queria dormir. pediu pra não largá-lo - assim fisica e não sentimentalmente. eu disse: amanhã. houve silêncio e talvez ele pensasse no quanto aquela noite que não havia sido poderia decidir os próximos dias, poucos que eram. repeti: amanhã, nos vemos amanhã.(...)? - numa pontuação que não cabe usar aqui, mas uso, por única que expresse a entonação. eu ouvi ainda, quase dormindo um amanhã falado com voz de sorriso. de repente sobraram as nuvens, aquelas nuvens. e novamente nu vens ao meu alcance com tuas mãos que matam aranhas e teu sorriso de dentes de leite. amanhã sabemos, é dia de adeus.

1.3.10

SEM POESIA

hoje eu acordei sem poesia
como se fosse um dia qualquer de dezembro
mas hoje é 27
e dezembro já foi
então, como poderia ser hoje um dia qualquer?

mas os fato são apenas estes:
hoje eu acordei sem poesia
não há o que concordar ou discordar
é como de repente aquela árvore que balança
(e sequer relativizaríamos a dizer que, para a árvore, quem balança é o mundo)
somos fatos: eu e o balançar da árvore e, ainda, talvez, o dia de hoje
embora, para dizermos que hoje é 27, teríamos que dizer que é 27 para o calendários cristão
posto que há ainda alguns lugares que seguem outros calendários

hoje eu acordei sem poesia
e eu li teus versos e disse pra mim que não entendi
teus versos sempre tão simples
e eu incapaz e lê-los

então, para fingir que a poesia ainda morava em mim
tive assim que desabafar em forma de verso
como se houvesse resquícios ainda dela
talvez na sola da alma

8.2.10

DO QUE UM PEDAÇO DE PÃO

Ontem, pela primeira vez, tudo fazia sentido. Eu deitei no colchão, olhei o teto e tudo estava ali - e lembrei de quando achei um poema escrito na adolescência que falava sobre quando minha vida era bem mais simples do que um pedaço de pão, e essa frase fez sentido para mim, como se eu adolescesse de repente. Então fechei os olhos que ocultavam um sorriso de felicidade serena.

Ontem eu simplesmente soube que seria feliz para sempre, como conto de fadas. Eu descobri que nem todo sentimento escoa em três dias - só todos os outros, esse nunca.

Ontem eu disse que sabia o que queria - e dessa vez era verdade, não desculpa de uma fuga em outro rosto, como sempre fora antes. Eu disse sim sabendo que aquele sim significava amanhã e depois e semana que vem ainda. E eu não senti medo daquele sentimento por ser tão leve que era meu - não uma invasão bárbara como eu me acostumara a viver as coisas.

Mas quando abri os olhos, eu olhava para um teto que era só teto e aquela frase não fazia mais sentido algum. Que a minha vida era dessas de ficções modernas, que só valem a pena enfrentando monstros. Aquela calmaria não me era paz.

E é por isso meu bem, que acabou.

1.2.10

ATALHOS DE FINAIS FELIZES

Tenho um estranho carinho
pelas coisas que não dão certo
Toda lembrança escondida
de um futuro prometido em passados imperfeitos

É como se eu sempre soubesse
É como se tu quem me disse
Que essas coisas que acabaram
São atalhos de finais felizes