antes eu tinha pressa porque a pressa anda junto com a esperança. mas esse quase ano me ensinou a entender e hoje te cumprimento na rua como fôssemos amigos de infância, já meio esquecidos um do outro, onde a conversa precisa ser encurtada para não chegar na lembrança. e a lembrança é como um bafo na janela, esmaecendo até que apaga a alguns passos de distância. como que uma música calma a acompanhasse no seu momento de perder-se - trilha-sonora-lembrança-esquecida.
já não sei o que te dizia agora, meu ser.
ainda estás aí para ouvir o que não lembro?
não.
fuja logo: não valho a pena.
19.4.10
12.4.10
XÍCARA ERRADA
Não sei, acho que te ver me dá saudade. esse olhar que me acompanha sempre pelas costas como um sim que tens medo de ser. (Eu nunca precisei pedir perdão porque tu sabes que é sempre como se eu bebesse o veneno da xícara errada; enquanto podes te dar ao luxo de ciúme - teus olhos, não negue - fico eu a calcular palavras, a sonhar sempre serenos dias de um verão onde me ofereces um sorriso e tua mão e que então rimos dessa distância tão próxima que andava ao nosso lado; até vejo tua risada de ter me negado sempre, à espera de que meus hormônios aissem como flecha, sempre errando o alvo) Nós sabíamos mais fácil negar isso, que tua liberdade estava presa a esse medo da inconstância como companheira e que meu riso fácil já cansara de transmutar-se em uma ou duas lágrimas quase esquecidas. Puxo teu braço, vou dizer que nem todas as capitais tem o DDD que termina em 1, como tu me disse Veja Floripa, meu bem e então tu vai saber que também erra e que talvez esteja errando a mim também Tem horas? Sete e quinze, dizes.
E seguimos em direções opostas, os rostos dançando um balé sincronicamente assimétrico, sem jamais se encontrar. Até que a vida nos separe.
E seguimos em direções opostas, os rostos dançando um balé sincronicamente assimétrico, sem jamais se encontrar. Até que a vida nos separe.
5.4.10
SEM PONTUAÇÃO*
ele falava sem pontuação
não que falasse muito
era de poucas palavras e nenhum ponto
o que me fez pensar na entonação de uma frase que acaba sem ter um fim
talvez ele ainda ouça os ecos de último boa noite
oite, oite, oit
*isso não é um poema.
não que falasse muito
era de poucas palavras e nenhum ponto
o que me fez pensar na entonação de uma frase que acaba sem ter um fim
talvez ele ainda ouça os ecos de último boa noite
oite, oite, oit
*isso não é um poema.
29.3.10
NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA CAIXA
Todos, menos ela, riram quando tropeçou na caixa. Pensou que maldita caixa e, tivesse mais de dez anos, talvez parafraseasse Drummond e diria no meio do caminho tinha uma caixa, tinha uma caixa no meio do caminho, mas não os tinha, portanto não o fez.
Ainda extaseada pela humilhação a que a caixa lhe submeteu – ouvia-se mesmo os meninos com suas risadas altas e alguém gritou Gorda! no outro canto do pátio; baixou as mãos ao solo e recolheu o objeto, num instinto e, cabeça baixa, bochechas róseas, saiu em direção à casa, passo apressado de quem tem medo da vida. Duas quadras e a casa lhe espera. Primeiro o portão. Então a porta. A escada. O quarto.
Já na segurança da cama, distante até dos olhos da empregada que em breve diria que nem te vi chegar e logo mais tá com fome? Se quiser trago algo pra tu comer Não, não tinha fome. Então abriu a caixa; a maldita caixa que estava no meio do caminho. Com a caixa, um sorriso. Apressou-se em escondê-la – última gaveta do armário, atrás do uniforme da escola marista. E jurou que aquele seria seu segredo.
Ainda extaseada pela humilhação a que a caixa lhe submeteu – ouvia-se mesmo os meninos com suas risadas altas e alguém gritou Gorda! no outro canto do pátio; baixou as mãos ao solo e recolheu o objeto, num instinto e, cabeça baixa, bochechas róseas, saiu em direção à casa, passo apressado de quem tem medo da vida. Duas quadras e a casa lhe espera. Primeiro o portão. Então a porta. A escada. O quarto.
Já na segurança da cama, distante até dos olhos da empregada que em breve diria que nem te vi chegar e logo mais tá com fome? Se quiser trago algo pra tu comer Não, não tinha fome. Então abriu a caixa; a maldita caixa que estava no meio do caminho. Com a caixa, um sorriso. Apressou-se em escondê-la – última gaveta do armário, atrás do uniforme da escola marista. E jurou que aquele seria seu segredo.
22.3.10
READOLESCER
É sabido que, em idade avançada, as pessoas voltam a agir como crianças. De início, apenas a teimosia dos pequenos dá as caras, quase tímida, até que, pouco antes da morte lhes presentear com uma derradeira visita, chegam novamente ao uso de fraldas. No além, talvez, voltem a mamar em tetas imaginárias. O que raros comentam, porém, é que, antes de voltar à infância, uns passos antes de tornarem-se realmente anciãos, há os que fazem uma rápida incursão pela adolescência.
Foi assim com meu pai, depois de anos a acompanhar a adolescência dos três filhos, cujos amigos viam em nossa casa reduto seguro para as mentiras contadas aos pais. Acompanhou assim toda uma geração que fumava escondido dos pais, e acostumou-se a fazer segredo sobre uma ou outra vez que as amigas chegavam bêbadas em minha casa.
Mas, há algum tempo, quem adolesceu foi ele.
Fumante convicto desde antes de minha chegada ao mundo, o pai parava de fumar quase todos os verões e, em quase todos os verões, era definitiva sua decisão. Certa vez, a disposição vinha acompanhada de algum ato heróico, como jogar uma carteira ainda repleta de cigarros fora; noutras, era seguida apenas de silêncio e percebida por nós somente quando lhe pediam um cigarro e ele respondia sem certeza na voz que não fumo mais.
É notório que seus curtos períodos de não fumante eram seguidos de humor instável e excentricidades: segurava cigarros apagados na mão, usava adesivos de nicotina, chicletes diversos e toda sorte de estratégia para esquecer que não estava fumando. Ao fim do primeiro mês de abstinência, reuníamos sem querer na cozinha com olhos cúmplices, sem nada dizer, mas que todos sabíamos o significado. Era um apelo silencioso para que ele se entregasse novamente aos braços do tabaco.
O último verão, porém, foi diferente. Decretou, pelo sexagésimo verão consecutivo (posto que não consigo imagina-lo, nem criança, sem o cigarro em mãos) que havia largado o vício. Uma nova variedade de chicle de nicotina passou a freqüentar a casa, atestando a seriedade do propósito. Mas eis que, de uma hora para a outra, passou a sair no meio da noite para ver as estrelas. Voltava alguns minutos depois, o cheiro de cigarro encruado ao corpo.
Comentei com a mãe, um dia, que comportou-se e me fez comportar-me exatamente como a mãe de um adolescente faz: finge que não sabe, disse. E passamos todos a fingir, então, sustentando o teatro. Às vezes, para incutir-lhe vergonha, comentávamos em frente a amigos sobre sua vitoriosa deserção em relação ao tabaco. Ele bebia um gole de cerveja e ia ao banheiro. Na volta, o cheiro inconfundível o acompanhava sempre.
Hoje mantemos a farsa, imaginando secretamente o orgulho que ele carrega, de enganarnos há meses. Mas ainda esperamos o dia em que, sem pressa, trocará a nicotina por um pace de fraldas.
Foi assim com meu pai, depois de anos a acompanhar a adolescência dos três filhos, cujos amigos viam em nossa casa reduto seguro para as mentiras contadas aos pais. Acompanhou assim toda uma geração que fumava escondido dos pais, e acostumou-se a fazer segredo sobre uma ou outra vez que as amigas chegavam bêbadas em minha casa.
Mas, há algum tempo, quem adolesceu foi ele.
Fumante convicto desde antes de minha chegada ao mundo, o pai parava de fumar quase todos os verões e, em quase todos os verões, era definitiva sua decisão. Certa vez, a disposição vinha acompanhada de algum ato heróico, como jogar uma carteira ainda repleta de cigarros fora; noutras, era seguida apenas de silêncio e percebida por nós somente quando lhe pediam um cigarro e ele respondia sem certeza na voz que não fumo mais.
É notório que seus curtos períodos de não fumante eram seguidos de humor instável e excentricidades: segurava cigarros apagados na mão, usava adesivos de nicotina, chicletes diversos e toda sorte de estratégia para esquecer que não estava fumando. Ao fim do primeiro mês de abstinência, reuníamos sem querer na cozinha com olhos cúmplices, sem nada dizer, mas que todos sabíamos o significado. Era um apelo silencioso para que ele se entregasse novamente aos braços do tabaco.
O último verão, porém, foi diferente. Decretou, pelo sexagésimo verão consecutivo (posto que não consigo imagina-lo, nem criança, sem o cigarro em mãos) que havia largado o vício. Uma nova variedade de chicle de nicotina passou a freqüentar a casa, atestando a seriedade do propósito. Mas eis que, de uma hora para a outra, passou a sair no meio da noite para ver as estrelas. Voltava alguns minutos depois, o cheiro de cigarro encruado ao corpo.
Comentei com a mãe, um dia, que comportou-se e me fez comportar-me exatamente como a mãe de um adolescente faz: finge que não sabe, disse. E passamos todos a fingir, então, sustentando o teatro. Às vezes, para incutir-lhe vergonha, comentávamos em frente a amigos sobre sua vitoriosa deserção em relação ao tabaco. Ele bebia um gole de cerveja e ia ao banheiro. Na volta, o cheiro inconfundível o acompanhava sempre.
Hoje mantemos a farsa, imaginando secretamente o orgulho que ele carrega, de enganarnos há meses. Mas ainda esperamos o dia em que, sem pressa, trocará a nicotina por um pace de fraldas.
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