O pai era um homem de vícios secretos. Já contei, em outro texto, que ele fumava escondido. Mas nunca contei da adoração secreta que nutria por nossa cachorrinha.
Acontece que sempre tivemos animais em casa, mesmo que minha mãe se encarregasse do sumiço de alguns. O pai, apesar de não os maltratar, preferia distância. Quando ia sentar-se ao sofá, sempre junto ao braço direito do móvel, que ficava exatamente em frente à TV, chamava-nos. Tira ele daqui. A frase imutável poderia referir-se à nossa gata ou ao outro cachorro que tínhamos, já falecido. Mas ele ignorava-lhes os nomes e mesmo o sexo. Era sempre apenas ele. E falava quando me virem fazendo carinho em bicho podem chamar a SAMU. O que era a variação de uma frase que usava para quase tudo o que previa nunca fazer. E SAMU, em seu discurso, vinha no feminino mesmo, referindo-se à ambulância do serviço.
Mas quando a Felícia, uma Yorkshire com carisma de líder nacional, chegou a nossa casa, o pai mudou. De vez em quando perguntava-nos, quando ela não estava a vista quase em tom de desconfiança cadê ela? O pronome definindo o sexo corretamente era um indício de mudança que não poderia passar despercebido. A cadela conquistou não apenas sua permanência na casa, permitida pela mãe, quanto o carinho desta, que passou a ser freqüentadora assídua de pet shops, levando a Felícia no colo ou em uma das novas coleiras que ela lhe comprava.
O pai, por sua vez, trazia o carinho pelo animal cada vez mais aparente, mesmo que teimasse em disfarçá-lo. De vez em quando era flagrado sentado ao sofá, no lugar imutável, com a cadela ao lado. E chegou mesmo, esses dias, a perguntar se a bichana não estava com fome, ao ver que carregava um pote de comida na boca.
Esta madrugada, ao acordar, percebi que a Felícia não estava em sua cama. Procurei atrás do sofá, onde, numa atitude contorcionista, conseguia se esconder quando queria sossego; e sob minha cama, um de seus locais prediletos. Mas ela não estava. Uma busca minuciosa apontou seu paradeiro: o quarto de meus pais, entre um e o outro. Não sei se espero mais alguns dias para analisar as novas manifestações de carinho, mas é certo que nos atrasamos na hora de chamar a SAMU.