6.12.10

Haicai para Maria Clara

Grande confusão verbal
aprendeu a palavra titia
com uma câmera digital

8.11.10

O PÁSSARO

Deixava sempre a janela aberta para ouvir. Sabia que, pela manhã, as ambulâncias se confundiriam com cantos de pássaros. Gostava, sobretudo, da discrepância e de, às vezes, amanhecer imaginando que vida aquela ambulância buscava, ou qual morte estaria anunciando. Quando satirizavam seu peculiar gosto pelo sangue alheio, calava. Era apenas uma forma de enxergar as coisas, quase um daltonismo. E sempre havia um ou outro pássaro anunciar que não só de humanos se faz o mundo.

Aquele foi diferente.

Entrou desrespeitoso através da janela e posicionou-se a seu lado. A asa manchada de sangue. Tentou enxotá-lo, para que voasse de volta à rua, à rua que era seu lugar. O pássaro, penas amarelas com a mancha vermelha denunciando ferida, negou-se. Teimou ficar ali com ar imponente de quem exige ajuda.

Ela, que desfrutava ao amanhecer de seu canto, a embelezar as sirenes, não poderia hoje, por obséquio, levá-lo a um veterinário, fazer um curativo naquela asa? Não. Tinha pressa, e apressada foi ao trabalho, ao dentista, à academia, para então voltar a noite e vê-lo novamente ali, sustentando o silêncio, como em greve de fome.

Tratou de pegar o pássaro e colocá-lo para fora de casa, com as próprias mãos - lavadas em seguida e desinfetadas com álcool gel. O bichano já estava lhe sujando a casa de sangue e teria que chamar a faxineira tão logo fosse possível. Para que não entrasse mais, fechou a janela. E estava cansada, e casada dormiu, porque na manhã seguinte tinha pressa, que ir trabalhar, passar na estética, pagar aluguel.

Quando chegou em casa, o pássaro permanecia em frente a janela, as penas cada vez mais perdendo o tom amarelo para o vermelho. A falta de canto não lhe era mais protesto, e sim, talvez, única escolha. Se apiedou do animal e deixou-lhe entrar novamente. Não era comum tamanha dedicação.

Assim que cruzou a linha que divide a rua da casa, deu um último silvo, que confundiu-se com outra ambulância, que carregava vida ou morte humana, e desfaleceu.

6.9.10

QUASE-POESIA

MORRO
porque a vida não tem mais graça
desisti de tudo
e mesmo assim, por pirraça
não desistiram de mim

MORRO
porque há emprego e eu não quero
porque há sossego e eu espero
que isso tenha início, meio e fim

MORRO
porque o sol hoje se pôs mais bonito
do que todos os dias bonitos
com tons de uma aquarela
que não se encontra mais

MORRO
porque hoje sorri todos os sorrisos
que um dia alguém sorriu
porque a vida é imprevisto
e a minha já partiu

MORRO
porque a vida me inunda
e deixo aos meus
meia dúzia de alegria
todo deus que existir
e uma quase poesia

30.8.10

ROSA-E-ROXO

Às vezes eu olhava e sabia que era somente uma flor que abusava da mistura rosa-e-roxo para chamar a atenção. Quase sempre era assim já e meu olho costumava até a não vê-la, na pressa dos tempos. Mas, naquela manhã, depois de cinco dias em uma rotina de vômito e fezes, encontrar a flor para a qual eu fazia pedidos na infância me pareceu um sinal.

É verdade que quando criança minha história variava de acordo com o humor. Para algumas amigas dizia que dava sorte - e só. Para outras, indicava que fizessem desejos e a planta se encarregaria de torná-los reais. Para todas, porém, reforçava que deveriam guardar a flor.

Naquele dia, ao encontrá-la na saída do hospital, não soube escolher uma das virtudes atribuídas à planta. Por via das dúvidas, fiz um desejo e saí comemorando sorte, com ela no bolso, sem medo de parecer criança.

23.8.10

METRÔ

às vezes eu penso que o metrô é um fluxo contínuo. às vezes eu penso que o metrô está dentro do meu próprio corpo - é aquela chaga purulenta que não cicatriza nem dói. confesso minha vontade de parar em meio à estação para ver se o fluxo pára também -
............................................................................................................................mas o que acontece se o fluxo pára (sei lá) meia hora?
param também, por acaso ou rebeldia, os ponteiros dos relógios?
e a chuva na rua, que fará?
(se todos estão lá, parados, a chuva não os pode molhar.) porque você sabe, parando os relógios as fábricas param também. não se produz mais café, energia ou força de trabalho.


.eis que me dou conta: o metrô pára também. (ah, se um dia eu parasse aquele fluxo, quem sabe congelava o riso banguela no rosto da maria? quem dirá que não parei a morte no encalço de seu antônio? e talvez a juliana tivesse para sempre o namorado ao seu lado.)


às vezes eu penso que o metrô é um fluxo contínuo. às vezes eu penso que o metrô está dentro da vida - e que só depende de mim.