3.1.11

QUANDO SENTIR QUE TEM TUDO

Quando você sentir que tem tudo, apegue-se ao
                                                                      nada
                                                                               desfaça-se feito poeira num aceno
                                  oceânico
                                              (como se tudo fosse assim um fluxo contínuo)

Quando você souber que tem tudo, parta
                                                             e partida seja talvez a única coisa que lhe falta
                                    e a falta seja talvez a única coisa que lhe falte

E essa certeza que carrega sempre sob o braço talvez fique pelo caminho

Quando sentir que tem tudo, engane-se
                                                     porque a vida é desejo.


20.12.10

NA METRÓPOLE

ela mora na metrópole e tem os pés sujos de suor e indiferença. na metrópole é música a buzina do carro antigo e o elevador do prédio que insiste em subir e descer sempre que chamado. e é música também a música, essa mistura de sons que sai do apartamento dos vizinhos e ingressa sem permissão no seu.

na metrópole não é permitido escolher. as coisas apenas estão e sua cabeça deve ser movida 90º acima e 90º abaixo sempre em aprovação. a metrópole não tem rosto e quando sai de casa caminha 7 quadras até o metrô lotado que lhe leva ao trabalho sempre no mesmo pontual horário e 5 paradas depois desce na estação trabalho caminha meia quadra peatonal busca as chaves na bolsa e sempre demora a encontrá-las mas encontra e abre a porta e entra chama o elevador e sobe até a oficina X do 80º andar onde continua sendo apenas sujeito de verbos por mais 8 horas, quando não vocativo de algum xingamento.

o relógio sabe então dar-lhe alforria ao final de cada dia, quando seus ponteiros estiram-se lentamente, um em oposição exata ao outro, formando uma vertical reta perfeita. e nessa linearidade ela sabe que é livre, daquela liberdade que as metrópoles tem. e nessa hora em que passa já despreocupada pelas bancas de revistas, lê mais um assassinato e dessa-vez-não-fui-eu-que-sorte-veja-só. e pensa em telefonar para alguém, mas não há ninguém para ligar e são-só-vinte-quadras-vou-caminhando.

na metrópole ela é invisível. e quando chega em casa, sorri.

13.12.10

PORTUÑOL

De repente não havia mais ninguém. Tudo olvidado no momento do check in. Esta sempre fora minha casa – ou talvez faça só um mês, conto mentalmente com esta nova noção de tempo cujos dias da semana podem também ser encontrados no planetário. E o planetário, este antigo companheiro, não está mais ubicado ao lado da faculdade que também deixei de frequentar.

Sim, faz só um mês, respondo ao policial que, desconfiando deste pelo loiro e dessa pele branca misturadas ao sotaque brasileiro indaga se já tenho minha identidade. No, no la tengo, verdad. Solo voy a tenerla en enero, sem importar-me com a correção gramatical.

Quando saio dali percebo o tempo que cabe dentro de um mês, o que inclui, já te disse, segundos seculares e dias que correm, assim com essa velocidade que só o tempo sabe que tempo tem. E é nessa velocidade de dias que bajo del subte, camino cuatro cuadras hasta que sé yo e paro. É o Brasil que me chama em 140 caracteres na tela do celular. Aquela palavra que sempre acreditamos tão brasileira me invadindo agora, plena 9 de Julio.

Se não obteve resposta, minha desculpa unânime sempre será este sinal inconstante de celulares porteños. Impossível expressar assim, tanta distância e tão pouco espaço, o estranhamento de não extrañarte.

6.12.10

Haicai para Maria Clara

Grande confusão verbal
aprendeu a palavra titia
com uma câmera digital

8.11.10

O PÁSSARO

Deixava sempre a janela aberta para ouvir. Sabia que, pela manhã, as ambulâncias se confundiriam com cantos de pássaros. Gostava, sobretudo, da discrepância e de, às vezes, amanhecer imaginando que vida aquela ambulância buscava, ou qual morte estaria anunciando. Quando satirizavam seu peculiar gosto pelo sangue alheio, calava. Era apenas uma forma de enxergar as coisas, quase um daltonismo. E sempre havia um ou outro pássaro anunciar que não só de humanos se faz o mundo.

Aquele foi diferente.

Entrou desrespeitoso através da janela e posicionou-se a seu lado. A asa manchada de sangue. Tentou enxotá-lo, para que voasse de volta à rua, à rua que era seu lugar. O pássaro, penas amarelas com a mancha vermelha denunciando ferida, negou-se. Teimou ficar ali com ar imponente de quem exige ajuda.

Ela, que desfrutava ao amanhecer de seu canto, a embelezar as sirenes, não poderia hoje, por obséquio, levá-lo a um veterinário, fazer um curativo naquela asa? Não. Tinha pressa, e apressada foi ao trabalho, ao dentista, à academia, para então voltar a noite e vê-lo novamente ali, sustentando o silêncio, como em greve de fome.

Tratou de pegar o pássaro e colocá-lo para fora de casa, com as próprias mãos - lavadas em seguida e desinfetadas com álcool gel. O bichano já estava lhe sujando a casa de sangue e teria que chamar a faxineira tão logo fosse possível. Para que não entrasse mais, fechou a janela. E estava cansada, e casada dormiu, porque na manhã seguinte tinha pressa, que ir trabalhar, passar na estética, pagar aluguel.

Quando chegou em casa, o pássaro permanecia em frente a janela, as penas cada vez mais perdendo o tom amarelo para o vermelho. A falta de canto não lhe era mais protesto, e sim, talvez, única escolha. Se apiedou do animal e deixou-lhe entrar novamente. Não era comum tamanha dedicação.

Assim que cruzou a linha que divide a rua da casa, deu um último silvo, que confundiu-se com outra ambulância, que carregava vida ou morte humana, e desfaleceu.