- Não dá mais.
- Como assim?
- Assim.
- Porquê?
- Não tem.
- Tem outro?
- Não.
- Ciúme?
- Não.
- Me diz...
- Não sei, oras.
- É tua mãe, né? Te envenenando...
- Não.
- É outro então. Eu sei que é outro. Quem é?
- Não é.
- Ta infeliz?
- Não.
- Não me ama mais. É isso.
- Amo.
- Então...?
- Não sei.
- É outro, só pode ser...
- Não é.
- Mas então... Me diz. Porquê? Tem que ter uma razão. Me diz.
- Razão demais.
9.6.08
12.5.08
INS
Estava morto e lhe bastava, não obstante a vontade de escrever, herdada de seus tempos vivos - idos tempos - era tudo inadiavelmente igual. Havia, claro, a falta de tudo que teve, mas o pensamento de que nunca teve nada era superior à ela - fora um coitado em busca de papel e caneta. Sua maior obra era o único livro escrito, que tornara ele conhecido como escritor, fizera com que desse entrevistas nos programas de maior audiência e tivesse a face estampada em algumas revistas. Serviu para conseguir mulheres, seu segundo objetivo em vida, já que as feições mal desenhadas não lhe ajudavam. Sua vida, enfim, tinha girado em torno das letras - e, de certa forma, as letras puseram fim à ela. Se com os rabiscos havia conseguido a primeira e última mulher, com esta havia obtido sua atual condição de óbito. Causas ainda desconhecidas - e que permanecessem assim, não lhe interessavam mais os assuntos mundanos.
Teimava o defundo em continuar apegado à vida literária, porém. O além mostrava-se para o cadáver de seus olhos, uma grande tela branca, a ser preenchida. Mas, ao olhar para a tela em branco, o escritor se deu conta de que não tinha mais nada a dizer. A morte era incolor e inodora, como na escola havia aprendido que a água deveria ser. Era inaudível também - uma profusão de ins que não se sentia. E, se em tudo via a grande tela branca, não era simples desejo de escrever, mas era imerso em luz branca e nada mais via senão essa luz. Na morte, dava-se adeus aos sentidos, insensível que era.
Se pela primeira vez atacava-lhe a falta de inspiração, mal maior, tão temido em vida, que vinha agora dar as caras quando mais debilitado, potenciava a sensação de falta que sentia, e a tornava como única coisa presente, atacando seus pensamentos e impedindo sequer que escrevesse sobre o único sentimento que então sabia sentir.
De tudo fêz-se loucura, pois, se em vida fora letra pura, era agora a falta delas, quase iletrado. Tão cego, surdo, mudo, que era incapaz de saber o mundo e, portanto, impossível escrevê-lo. A falta de sensações transformou-se em instinto suicida e foi tomando conta dele pois era incapaz de em morte subsitir pela única coisa que motivara sua vida.
Matou-se - sequer lembrava que já estava morto.
Teimava o defundo em continuar apegado à vida literária, porém. O além mostrava-se para o cadáver de seus olhos, uma grande tela branca, a ser preenchida. Mas, ao olhar para a tela em branco, o escritor se deu conta de que não tinha mais nada a dizer. A morte era incolor e inodora, como na escola havia aprendido que a água deveria ser. Era inaudível também - uma profusão de ins que não se sentia. E, se em tudo via a grande tela branca, não era simples desejo de escrever, mas era imerso em luz branca e nada mais via senão essa luz. Na morte, dava-se adeus aos sentidos, insensível que era.
Se pela primeira vez atacava-lhe a falta de inspiração, mal maior, tão temido em vida, que vinha agora dar as caras quando mais debilitado, potenciava a sensação de falta que sentia, e a tornava como única coisa presente, atacando seus pensamentos e impedindo sequer que escrevesse sobre o único sentimento que então sabia sentir.
De tudo fêz-se loucura, pois, se em vida fora letra pura, era agora a falta delas, quase iletrado. Tão cego, surdo, mudo, que era incapaz de saber o mundo e, portanto, impossível escrevê-lo. A falta de sensações transformou-se em instinto suicida e foi tomando conta dele pois era incapaz de em morte subsitir pela única coisa que motivara sua vida.
Matou-se - sequer lembrava que já estava morto.
5.5.08
CÃES CHILENOS
Os cães chilenos nao têm pressa. Se pude aprender algo sobre o Chile, foi isso. A primeira impressão veio logo na saída do aeroporto, ao ser abordada por um exemplar de vira-latas chileno. Tinha o tamanho de um pastor alemão e me olhava sério. Parei – tenho medo, desde que, quando criança, um cachorro mordeu-me na rua, deixando a cicatriz que carrego até hoje na perna direita – mas o cachorro também estava parado, e assim continuou. Ele me dava passagem para desviar de sua ameaçadora existência.
Mais tarde pude perceber que a educação era o forte daqueles cães. Isso, claro, quando estavam acordados, fato raro. Todos, sem exceçao, possuiam a mesma estatura avantajada que aquele que eu havia encontrado na saída do aeroporto. E como dormiam aqueles falsos pastores. Encolhidos em algum canto da calçada – nunca no meio, conscientes de que atrapalhariam o fluxo de pedestres – dormiam tranquilos, alheios às notícias veiculadas nos jornais. Lembro um dia ter visto dois cães deitados, um em cima e outro embaixo de um banco de praça, em um beliche improvisado.
Eram invejáveis espécimes de vira-latas. Jamais latiam, provavelmente antevendo que o gesto poderia ser mal visto pela sociedade. Posso inclusive jurar que, um dia, vi um destes esperado que o sinal ficasse verde para que pudesse atravessar a rua. Havia um certo código de ética entre eles, todos, com sua intimidante estatura, entendiam que era desnecessário qualquer tipo de ultraje aos humanos. Seriam respeitados, desde que mantivesem respeito. Por isso não dirigiam-se a ninguém, nao pulavam e sequer pensavam em pedir comida. Os cães chilenos nao tinham a mínima pressa, andavam com seu ar blasé indiferentes aos problemas sociais.
Invejei aquele país por contar com cachorros tão decididamente educados, tão seguros de si, ao contrário de nossos vira-latas brasileiros, sempre carentes de atenção. Invejei também aquela comunidade canina, estruturada de forma a mostrar um comportamento único. Confesso, invejei o descaso daqueles cães com tudo – única preocupação fosse o frio, talvez a fome.
Quanto ao povo chileno, ainda me restam dúvidas. Mas guardo a certeza de que nossos cães têm muito a aprender com os de lá.
Mais tarde pude perceber que a educação era o forte daqueles cães. Isso, claro, quando estavam acordados, fato raro. Todos, sem exceçao, possuiam a mesma estatura avantajada que aquele que eu havia encontrado na saída do aeroporto. E como dormiam aqueles falsos pastores. Encolhidos em algum canto da calçada – nunca no meio, conscientes de que atrapalhariam o fluxo de pedestres – dormiam tranquilos, alheios às notícias veiculadas nos jornais. Lembro um dia ter visto dois cães deitados, um em cima e outro embaixo de um banco de praça, em um beliche improvisado.
Eram invejáveis espécimes de vira-latas. Jamais latiam, provavelmente antevendo que o gesto poderia ser mal visto pela sociedade. Posso inclusive jurar que, um dia, vi um destes esperado que o sinal ficasse verde para que pudesse atravessar a rua. Havia um certo código de ética entre eles, todos, com sua intimidante estatura, entendiam que era desnecessário qualquer tipo de ultraje aos humanos. Seriam respeitados, desde que mantivesem respeito. Por isso não dirigiam-se a ninguém, nao pulavam e sequer pensavam em pedir comida. Os cães chilenos nao tinham a mínima pressa, andavam com seu ar blasé indiferentes aos problemas sociais.
Invejei aquele país por contar com cachorros tão decididamente educados, tão seguros de si, ao contrário de nossos vira-latas brasileiros, sempre carentes de atenção. Invejei também aquela comunidade canina, estruturada de forma a mostrar um comportamento único. Confesso, invejei o descaso daqueles cães com tudo – única preocupação fosse o frio, talvez a fome.
Quanto ao povo chileno, ainda me restam dúvidas. Mas guardo a certeza de que nossos cães têm muito a aprender com os de lá.
28.4.08
A ARTE DE APRENDER A VOAR
Todos os jornais estampam o triste drama da menina Isabela, jogada pela janela há cerca de um mês. A menina ainda revira-se no caixão e é ressuscitada diariamente em noticiários de todos os tipos, mesas de bar, discussões em família e textos de pretensos literatos.
Há também um consenso entre especialistas das mais diversas áreas - de estatísticos a secretárias - sobre a culpa do pai e a crueldade com que o crime foi cometido. O assunto, como todos pudemos acompanhar, é de extrema relevância para a sociedade.
Mas está morta. Nenhum rito de magia negra a trará de volta à vida - é simples, ela não irá contar a ninguém a sua visão dos fatos. Então, eu, com o conhecimento sobre o caso próprio de um perito em leiguice, conto a minha.
Eu advogo em prol do pai.
Ele, extremamente afetuoso, portou-se como uma das várias espécies de pássaros que, na tentativa de ensinar a seus rebentos a arte do vôo, os empurram para fora do ninho, até que este aprenda a voar. Esses pássaros sabem o bem que fazem a sua prole, pois a comunidade pássara espera deles que saibam voar e, se não for com seus progenitores, com quem hão de aprender? O pai de Isabela, bastante atento aos acontecimentos da natureza, achou-se no direito de voltar às origens e tentar ensinar a filha a arte do vôo. Está certo, entendo que talvez o ato possa parecer um tanto retrógrado para alguns, mas é direito inerente ao homem a liberdade para escolha de estilo de vida que lhe agrade.
O ato daquele pai foi um ato apaixonado, digo. Prezando pelo bem e pela evolução de sua filha, como tantas espécies de pássaros fazem e fizeram ao longo do tempo. E é graças àqueles pássaros atentos às necessidades de seus pequenos, que podemos hoje acompanhar o vôo de diferentes gerações.
Mas é que o povo gosta de sangue e quer um assassino truculento em cada esquina (há boatos de que o novo plano de governo, inclusive, será Tragédia para todos).
As pessoas, definitivamente, não sabem ver a beleza que há por aí.
Há também um consenso entre especialistas das mais diversas áreas - de estatísticos a secretárias - sobre a culpa do pai e a crueldade com que o crime foi cometido. O assunto, como todos pudemos acompanhar, é de extrema relevância para a sociedade.
Mas está morta. Nenhum rito de magia negra a trará de volta à vida - é simples, ela não irá contar a ninguém a sua visão dos fatos. Então, eu, com o conhecimento sobre o caso próprio de um perito em leiguice, conto a minha.
Eu advogo em prol do pai.
Ele, extremamente afetuoso, portou-se como uma das várias espécies de pássaros que, na tentativa de ensinar a seus rebentos a arte do vôo, os empurram para fora do ninho, até que este aprenda a voar. Esses pássaros sabem o bem que fazem a sua prole, pois a comunidade pássara espera deles que saibam voar e, se não for com seus progenitores, com quem hão de aprender? O pai de Isabela, bastante atento aos acontecimentos da natureza, achou-se no direito de voltar às origens e tentar ensinar a filha a arte do vôo. Está certo, entendo que talvez o ato possa parecer um tanto retrógrado para alguns, mas é direito inerente ao homem a liberdade para escolha de estilo de vida que lhe agrade.
O ato daquele pai foi um ato apaixonado, digo. Prezando pelo bem e pela evolução de sua filha, como tantas espécies de pássaros fazem e fizeram ao longo do tempo. E é graças àqueles pássaros atentos às necessidades de seus pequenos, que podemos hoje acompanhar o vôo de diferentes gerações.
Mas é que o povo gosta de sangue e quer um assassino truculento em cada esquina (há boatos de que o novo plano de governo, inclusive, será Tragédia para todos).
As pessoas, definitivamente, não sabem ver a beleza que há por aí.
10.3.08
5 DE MARÇO
Um homem foi morto na agência de banco que freqüento. Era assalto. Podia ser eu – mas não vou ao banco no início do mês. Ia depositar dinheiro, talvez até fosse um office boy com o medo ingênuo de perder o salário mínimo que ganhava no fim do mês. Não li a notícia, confesso. Ouvi falar. No ônibus.
Ia depositar dinheiro, saiu de um banco e entraria em outro – não chegou a entrar. Sabe lá quanto tinha o dito homem – sabe-se, por acaso, se era homem mesmo? Podia ser uma mulher, talvez nada realmente tivesse acontecido e tudo que ouvi fosse mero boato, saído da boca de uma daquelas pessoas sempre precisa ter algo extraordinário para contar.
Não sei que idade tinha, qual sua classe social, que fim teria o dinheiro – talvez até dinheiro sujo, o safado, quem sabe fosse um laranja – mas agora ele estava morto, na mesma agência bancária que freqüento. Logo eu, que nunca fui ao banco em início de mês, me deparava agora com aquela situação inquietante, a confirmar meus medos.
Não dormi aquela noite. Contei o boato para tantos quanto vi na fila de todos os bancos que freqüentei daquele dia em diante. Eu, que em toda minha vida havia sido chamado de neurótico, graças à pequenos cuidados que tomava sempre, como não freqüentar bancos em início de mês, tinha agora a prova de que sempre estivera correto. Pois um homem que sequer sei se é homem, de idade, classe social e índole que não posso estabelecer, morreu – imagino que tenha morrido, ao menos, o cobrador não mentiria – graças a uma quantia que não sei qual era, nem imagino a procedência ou o destino, na agência de banco que freqüento, logo no início do mês.
Poderia ter sido eu – mas eu não vou ao banco no início do mês.
Ia depositar dinheiro, saiu de um banco e entraria em outro – não chegou a entrar. Sabe lá quanto tinha o dito homem – sabe-se, por acaso, se era homem mesmo? Podia ser uma mulher, talvez nada realmente tivesse acontecido e tudo que ouvi fosse mero boato, saído da boca de uma daquelas pessoas sempre precisa ter algo extraordinário para contar.
Não sei que idade tinha, qual sua classe social, que fim teria o dinheiro – talvez até dinheiro sujo, o safado, quem sabe fosse um laranja – mas agora ele estava morto, na mesma agência bancária que freqüento. Logo eu, que nunca fui ao banco em início de mês, me deparava agora com aquela situação inquietante, a confirmar meus medos.
Não dormi aquela noite. Contei o boato para tantos quanto vi na fila de todos os bancos que freqüentei daquele dia em diante. Eu, que em toda minha vida havia sido chamado de neurótico, graças à pequenos cuidados que tomava sempre, como não freqüentar bancos em início de mês, tinha agora a prova de que sempre estivera correto. Pois um homem que sequer sei se é homem, de idade, classe social e índole que não posso estabelecer, morreu – imagino que tenha morrido, ao menos, o cobrador não mentiria – graças a uma quantia que não sei qual era, nem imagino a procedência ou o destino, na agência de banco que freqüento, logo no início do mês.
Poderia ter sido eu – mas eu não vou ao banco no início do mês.
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