Ontem, pela primeira vez, tudo fazia sentido. Eu deitei no colchão, olhei o teto e tudo estava ali - e lembrei de quando achei um poema escrito na adolescência que falava sobre quando minha vida era bem mais simples do que um pedaço de pão, e essa frase fez sentido para mim, como se eu adolescesse de repente. Então fechei os olhos que ocultavam um sorriso de felicidade serena.
Ontem eu simplesmente soube que seria feliz para sempre, como conto de fadas. Eu descobri que nem todo sentimento escoa em três dias - só todos os outros, esse nunca.
Ontem eu disse que sabia o que queria - e dessa vez era verdade, não desculpa de uma fuga em outro rosto, como sempre fora antes. Eu disse sim sabendo que aquele sim significava amanhã e depois e semana que vem ainda. E eu não senti medo daquele sentimento por ser tão leve que era meu - não uma invasão bárbara como eu me acostumara a viver as coisas.
Mas quando abri os olhos, eu olhava para um teto que era só teto e aquela frase não fazia mais sentido algum. Que a minha vida era dessas de ficções modernas, que só valem a pena enfrentando monstros. Aquela calmaria não me era paz.
E é por isso meu bem, que acabou.
8.2.10
1.2.10
ATALHOS DE FINAIS FELIZES
Tenho um estranho carinho
pelas coisas que não dão certo
Toda lembrança escondida
de um futuro prometido em passados imperfeitos
É como se eu sempre soubesse
É como se tu quem me disse
Que essas coisas que acabaram
São atalhos de finais felizes
pelas coisas que não dão certo
Toda lembrança escondida
de um futuro prometido em passados imperfeitos
É como se eu sempre soubesse
É como se tu quem me disse
Que essas coisas que acabaram
São atalhos de finais felizes
18.1.10
DEUS EX-MACHINA
Tu é apenas meu personagem e a ti não são permitidas vontades. Não tens sede ou fome e sequer te libero para sentir qualquer outra coisa. É preciso que entendas que, em tua condição de personagem, tens o dever de carregar coerência interna nos atos. As aulas de português ensinaram; o livro do Paulo Guedes ditou.
Portanto, te peço que não mordas mais em carnificina teu lábio inferior diante de minhas descrenças. Sugiro a ti, como a um personagem raso, que altere o discurso neste e naquele diálogo que se encontram na 5ª linha, 8ª dose.
Entende, é tudo teoria literária: para ue tal declaração fosse verdade, era preciso que houvesse um elemento anterior a confirmar. Uma dessas coisas que soam em silêncio na cabeça do leitor e o fazem acreditar.
(senão, essa paixão é deus ex-machina)
Portanto, te peço que não mordas mais em carnificina teu lábio inferior diante de minhas descrenças. Sugiro a ti, como a um personagem raso, que altere o discurso neste e naquele diálogo que se encontram na 5ª linha, 8ª dose.
Entende, é tudo teoria literária: para ue tal declaração fosse verdade, era preciso que houvesse um elemento anterior a confirmar. Uma dessas coisas que soam em silêncio na cabeça do leitor e o fazem acreditar.
(senão, essa paixão é deus ex-machina)
11.1.10
O que teu sorriso faz nesse rosto que não é teu? Me diz. Devias ter patenteado esse sorriso jovem que tu tens, de 28 dentes alvamente lisos - os sisos extraídos já, te dizendo adulto, o que és só em idade. Mas esse sorriso me invade o ônibus e sorrio-resposta como te faço. Para disfarçar o medo, peço a parada ao cobrador; pergunto as horas ao menino ao lado; me ofereço para segurar as frutas da senhora que me empurra com a coxa e me massacra com a sacola do Zaffari ainda cheirando a plástico novo. não, obrigada, ela diz com voz de receio que eu roube suas maçãs. seus frutos proibidos meticulosamente etiquetadis um a um para que em nada lembrem o pecado original. De repente acho que amo aquela mulher que sente repulsa por eu estar escrevendo em um ônibus; e a amo pelo único motivo que ela não carrega teu sorriso - não há sorriso algum naquele rosto pobre, surrado de vida, que deve manter na boca bem menos que teus 14 pares de dentes; a amo por saber que aqueles cabelos castanhos nunca serão como os teus: negros
negros
negros; que a pele castanha não será a tua, ainda alva de inverno; que o olho verde não será o teu, infinito profundo, buraco negro
(negro,
negro)
E a amo mais que tudo por não carregar teu sexo, teu cromossomo Y que sempre persegui; amo e sei que amo pelo simples fato de que quero carregar sua sacola repleta de maças e tomates e um provável mamão, para a digestão.
Amo como a um menino órfão, por quem só sinto amor pelo fato de ignorar sua existência.
Amo porque falta teu sorriso, e sem teu sorriso não haverá amor.
negros
negros; que a pele castanha não será a tua, ainda alva de inverno; que o olho verde não será o teu, infinito profundo, buraco negro
(negro,
negro)
E a amo mais que tudo por não carregar teu sexo, teu cromossomo Y que sempre persegui; amo e sei que amo pelo simples fato de que quero carregar sua sacola repleta de maças e tomates e um provável mamão, para a digestão.
Amo como a um menino órfão, por quem só sinto amor pelo fato de ignorar sua existência.
Amo porque falta teu sorriso, e sem teu sorriso não haverá amor.
4.1.10
BICHO DE ESTIMAÇÃO
Se houve sangue? jorrou nas paredes mofadas do apartamento esse bucólico líquido da vida, primeiro preto, depois verde e só então vestiu-se de sua tradicional cor de carne. Como estivéssemos nus, achamos engraçada aquela nova pintura das paredes - mesmo que o cheiro ocre da morte enjoasse um pouco o ambiente. Que fazemos agora, eu disse, mas tu já te ocupava em uma tela, misturando os tons daquele óbito. Coloquei uma música para te ajudar a pintar. Chico Buarque...? teu tom é de crítica, ele adorava Chico, eu respondo, enquanto começo a puxar o corpo em direção à janela, pois até os cadáveres precisam de um pouco de ar e o cheio de morte inunda o ambiente. trabalha amanhã, tu pergunt
a. trabalho, mas vou mentir que estou doente, preciso levar o defunto para passear. Mas não te digo isso, pois sei que vais reclamar que estou mimando demais o cadáver. Respondo apenas sim. Tu diz acho que vai chover e eu penso que, se chover, eu trabalho, pois não convém passear com mortos na chuva. Eu arrumo um colchão na sala para ele - é preciso descansar - mas antes lavo a louça para que o sangue não fique encruado. Ele não gostaria de ver sua louça italiana suja pelo próprio sangue.
a. trabalho, mas vou mentir que estou doente, preciso levar o defunto para passear. Mas não te digo isso, pois sei que vais reclamar que estou mimando demais o cadáver. Respondo apenas sim. Tu diz acho que vai chover e eu penso que, se chover, eu trabalho, pois não convém passear com mortos na chuva. Eu arrumo um colchão na sala para ele - é preciso descansar - mas antes lavo a louça para que o sangue não fique encruado. Ele não gostaria de ver sua louça italiana suja pelo próprio sangue.
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