6.9.10

QUASE-POESIA

MORRO
porque a vida não tem mais graça
desisti de tudo
e mesmo assim, por pirraça
não desistiram de mim

MORRO
porque há emprego e eu não quero
porque há sossego e eu espero
que isso tenha início, meio e fim

MORRO
porque o sol hoje se pôs mais bonito
do que todos os dias bonitos
com tons de uma aquarela
que não se encontra mais

MORRO
porque hoje sorri todos os sorrisos
que um dia alguém sorriu
porque a vida é imprevisto
e a minha já partiu

MORRO
porque a vida me inunda
e deixo aos meus
meia dúzia de alegria
todo deus que existir
e uma quase poesia

30.8.10

ROSA-E-ROXO

Às vezes eu olhava e sabia que era somente uma flor que abusava da mistura rosa-e-roxo para chamar a atenção. Quase sempre era assim já e meu olho costumava até a não vê-la, na pressa dos tempos. Mas, naquela manhã, depois de cinco dias em uma rotina de vômito e fezes, encontrar a flor para a qual eu fazia pedidos na infância me pareceu um sinal.

É verdade que quando criança minha história variava de acordo com o humor. Para algumas amigas dizia que dava sorte - e só. Para outras, indicava que fizessem desejos e a planta se encarregaria de torná-los reais. Para todas, porém, reforçava que deveriam guardar a flor.

Naquele dia, ao encontrá-la na saída do hospital, não soube escolher uma das virtudes atribuídas à planta. Por via das dúvidas, fiz um desejo e saí comemorando sorte, com ela no bolso, sem medo de parecer criança.

23.8.10

METRÔ

às vezes eu penso que o metrô é um fluxo contínuo. às vezes eu penso que o metrô está dentro do meu próprio corpo - é aquela chaga purulenta que não cicatriza nem dói. confesso minha vontade de parar em meio à estação para ver se o fluxo pára também -
............................................................................................................................mas o que acontece se o fluxo pára (sei lá) meia hora?
param também, por acaso ou rebeldia, os ponteiros dos relógios?
e a chuva na rua, que fará?
(se todos estão lá, parados, a chuva não os pode molhar.) porque você sabe, parando os relógios as fábricas param também. não se produz mais café, energia ou força de trabalho.


.eis que me dou conta: o metrô pára também. (ah, se um dia eu parasse aquele fluxo, quem sabe congelava o riso banguela no rosto da maria? quem dirá que não parei a morte no encalço de seu antônio? e talvez a juliana tivesse para sempre o namorado ao seu lado.)


às vezes eu penso que o metrô é um fluxo contínuo. às vezes eu penso que o metrô está dentro da vida - e que só depende de mim.

19.7.10

NATUREZA HUMANA

Se eu não tivesse um gato, talvez meu entendimento sobre relacionamentos fosse muito menor. Mas o fato é que o tinha e nunca gostei ou desgostei de sua presença. Quando em silêncio, às vezes, o via encolhido na cadeira ao lado da minha e sentia vontade de afagar aquele pêlo preto e macio. Era apenas fazer menção ao carinho que o gato tornava-se uma tortura. Puxava a mão que via em direção a sua cabeça e, se fugíamos, acompanháva-nos por horas ainda, até entender que fora apenas um carinho esporádico. Perseguia-nos e nos imputava sua enorme carência. Que carregássemos ela como chaga: quem mandou ter um gato?

Da independência dos felinos, nada trazia e, não fosse o formato e o ronronar que ressoava somente ao dirigirmos o olhar para ele, não o diríamos gato. Era sim, talvez carrapato, melhor das hipóteses cachorro, que alguns compartilham assim da carência canina.

Com o tempo, acostumei-me a desistir antes do primeiro afago para evitar o sofrimento posterior. Via o gato, mudava de aposento. Se ele vinha atrás, trancava-me no banheiro e, ao sair, tropeçava, quase sem querer, no bichano. Tornou-se quase medo o que nutria por ele.

Hoje, quando atendo o telefone, ouvindo choro de amigas do outro lado da linha, suplicando conselhos, rabiscando explicações, vontade pura de lhes emprestar o gato. Em uma semana, entenderiam na pele a natureza humana.

12.7.10

PLANO DE FUGA

Se já antes não havia certeza da sanidade mental do pai, agora era certo que esta já não mais existia. Certo dia, um mal estar lhe veio visitar durante o trabalho. Como foi parar no hospital devido a isso, soubemos que o mal estar era um fato, de fato. O pai, que evitava a brancura dos estabelecimentos voltados à saúde o quanto podia, ligou para a mãe informando o ocorrido. Não se sentia bem, uma dor no peito, não foi nada, nada demais. Pediu calma e uma muda de roupas. Era provável que ali passasse a noite, procedimento de rotina.

A mãe saiu do trabalho, correu para casa e trocou o almoço por uma visita ao hospital, munida de muda de roupas, chinelo e um pijama. Para o pai, claro. Quando próxima ao estabelecimento, o toque do celular lhe surge novamente: o pai, perguntando onde estava, que teve alta e iria para casa com ela, que não teve tempo de estacionar o carro. O pai, que lhe esperava do lado de fora do hospital, entrou apressado no veículo e vieram para casa. Não foi nada. Nada demais. Respondia às perguntas sobre o que ocorrera. Queria apenas deitar um pouco para descansar.

Durante o repouso, o telefone de casa toca, a perguntar pelo senhor Flávio Dutra. Ao saber do que se tratava foi quase espanto o que experimentamos: a enfermeira do hospital preocupara-se pois, na hora do remédio, constatou que o paciente havia desaparecido.

A ela, pedimos desculpas. A ele, uma explicação.